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Selic em 15% expõe dilema da política monetária no início de 2026

Autor:

Paloma Bastos

Categoria: Gestão Financeira

Com inflação menor que o esperado, crescimento mais fraco e influência do cenário externo, mercado acompanha a primeira decisão do Copom no ano

A taxa Selic, principal indicador de juros da economia brasileira, será definida amanhã (28) pelo Comitê de Política Monetária (Copom), marcando a primeira decisão de política monetária de 2026. O atual patamar de 15% ao ano é um dos mais elevados dos últimos quase 20 anos, nível observado pela última vez em julho de 2006, segundo dados do Banco Central.

Paralelamente à decisão no Brasil, também será definida a taxa básica de juros dos Estados Unidos, a Fed Funds, atualmente no intervalo entre 3,5% e 3,75%. A economia norte-americana, considerada referência para os mercados globais e emergentes, atravessa um ciclo de aperto monetário e sinais de enfraquecimento, com indicadores de atividade e mercado de trabalho no radar.

No início de janeiro de 2025, as estimativas apontavam inflação medida pelo IPCA em 4,99%, crescimento do PIB de 3,49%, taxa de câmbio em R$ 6,00 por dólar, Selic em 15% ao ano e resultado primário negativo em 0,5% do PIB.

Ao final do ano, porém, os dados observados ou já parcialmente conhecidos revelaram um cenário distinto. A inflação encerrou 2025 em torno de 4,26%, abaixo do esperado no início do ano. O crescimento econômico foi mais moderado. Embora o PIB anual ainda não tenha sido oficialmente divulgado, o acumulado do IBC-Br até novembro indica expansão de aproximadamente 2,39%. O câmbio também surpreendeu, fechando o ano em torno de R$ 5,63 por dólar, abaixo da projeção inicial. A taxa Selic, por sua vez, permaneceu em 15% ao ano, enquanto o resultado primário ainda aguarda divulgação oficial.

Esses números mostram que, entre os principais indicadores, apenas a Selic permaneceu alinhada à previsão original do mercado. Inflação, crescimento e câmbio evoluíram de forma diferente do cenário inicialmente traçado. Esse descompasso ajuda a explicar parte do dilema atual da política monetária.

Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária do Banco Central, vem adotando uma postura cautelosa no combate à inflação, mantendo a taxa de juros em nível elevado.

Para Kerssia Kamenach, doutora em Economia e sócia da Pool Consultores, é importante destacar que, ao longo da história brasileira, foram raros os momentos em que a inflação convergiu de forma sustentável para níveis próximos de 3%, meta atualmente perseguida pelo Banco Central. Esse fato tem sido frequentemente utilizado como argumento para justificar a manutenção da Selic em níveis elevados. No entanto, a inflação só se torna verdadeiramente nociva quando está fora de controle, algo que não caracteriza o momento atual do Brasil.

O mercado financeiro aposta que, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, o Banco Central manterá a taxa Selic em 15% ao ano. A decisão estaria ancorada no atual cenário econômico e, sobretudo, na leitura que a autoridade monetária tem feito das expectativas de mercado. Ainda assim, uma análise retrospectiva das projeções do Boletim Focus ao longo de 2025 levanta questionamentos sobre a precisão dessas estimativas.

Segundo Kerssia, diante desse contexto, a expectativa é que o Banco Central continue seguindo a sinalização do mercado, como fez ao longo de todo o ano de 2025. Resta saber até que ponto essa estratégia seguirá compatível com um cenário de crescimento mais fraco e inflação sob controle, sem impor custos excessivos à atividade econômica.

Com isso, esta se consolida como a primeira grande semana do calendário econômico de 2026, reunindo decisões relevantes no Brasil e no exterior, com potencial impacto direto sobre juros, câmbio, mercado financeiro e expectativas de crescimento.

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